Emanuele e Andrè Tomassi provam café na torrefação em Aprilia

Como ler o rótulo de um café de especialidade: variedade, processo, altitude

Andrè Tomassi

Pega numa embalagem de café de especialidade e vira-a: em vez de "100% arábica, sabor intenso" encontras uma lista que parece o cartão de cidadão de alguém. País, região, altitude, variedade, processo, produtor, notas de prova. O primeiro instinto é saltar tudo e ir direto ao "melão e morango" (que, de qualquer forma, é a parte mais divertida). Mas esse rótulo é o resumo mais útil que existe para perceber o que vai parar à tua chávena antes mesmo de abrires a embalagem. Vamos lê-lo linha a linha, com calma, como se faz ao balcão.

País e região: o ponto de partida, não o veredicto

"Colômbia" diz-te alguma coisa, mas muito menos do que pensas. Dentro do mesmo país convivem climas, solos e formas de trabalhar muito diferentes, e é por isso que nos rótulos de especialidade encontras também a região e, muitas vezes, o município ou o distrito. Quanto mais precisa for a indicação, mais rastreável é o café: sabes de onde vem aquele lote em concreto, não um genérico "América do Sul".

Um conselho prático: não escolhas o café só pelo país. "Gosto do Brasil" ou "a Etiópia não é para mim" são frases que ouvimos muitas vezes, e quase sempre a verdadeira razão está nas linhas seguintes do rótulo.

Altitude: porque é que os metros contam

A altitude indica-se em metros acima do nível do mar (às vezes com a sigla "m" ou "masl"). Em geral, quanto mais alto, mais frescas são as temperaturas e mais lenta é a maturação das cerejas. Um fruto que amadurece com calma tende a dar grãos mais densos e uma chávena mais complexa, muitas vezes com uma acidez mais viva e definida.

Mas atenção: a altitude não é um ranking. Um café a 1 200 metros não é "pior" do que um a 2 000, tem simplesmente um carácter diferente. E a mesma cota vale coisas diferentes consoante a proximidade do equador. Encara-a como uma pista, não como uma nota.

Variedade: a "raça" da planta

Tal como acontece com a uva no vinho, também no café existem muitas variedades botânicas: Typica, Bourbon, Caturra, Gesha e muitíssimas outras. Cada variedade tem a sua produtividade, a sua resistência às doenças e, sobretudo, o seu potencial aromático. Algumas são famosas pela doçura, outras pelo perfil floral, outras ainda por serem robustas e produtivas (o que, para quem cultiva, conta bastante).

No rótulo, a variedade ajuda-te a reconhecer aquilo de que gostas: se te apaixonaste por um café, aponta a variedade e procura outros lotes da mesma. É uma das formas mais simples de construíres um gosto pessoal, em vez de ires ao acaso.

Processo: a linha que mais muda o sabor

Se só puderes olhar para uma linha, olha para esta. O processo indica o que acontece à cereja de café depois da colheita, ou seja, como se separa o grão do fruto e como se seca. Em resumo:

  • Lavado: a polpa é retirada cedo, o grão fermenta e é lavado. Chávena normalmente limpa, luminosa, muito legível.
  • Natural: a cereja seca inteira, com o grão lá dentro. Mais corpo, mais fruta madura, mais doçura.
  • Honey e fermentações controladas (anaeróbicas e afins): meios-termos ou variantes mais técnicas, em que o produtor conduz a fermentação para obter perfis específicos.

Falámos disto com calma em Lavado, natural, anaeróbico: como o processo muda o sabor do café. Se queres mesmo perceber um rótulo, é a leitura certa para fazeres logo a seguir a esta.

Produtor e notas de prova

O nome da quinta ou do produtor é a assinatura do trabalho. No café de especialidade conta imenso: dois lotes da mesma região podem ser muito diferentes consoante quem os cultivou e processou.

Cupping na torrefação Tomassi Coffee: prova de café de especialidade

As notas de prova ("pêssego, mel, morango") não são aromas adicionados, juramos. São as semelhanças que quem prova encontra no próprio café, fruto da variedade, do processo e da torra. Usa-as como um mapa: não tens de sentir o morango ao primeiro gole, mas dizem-te para onde olhar. Queres treinar o nariz? Experimenta fazer um cupping em casa, é mais fácil (e mais divertido) do que parece.

Vamos experimentar: um rótulo a sério

Façamos o exercício com um dos cafés que temos na torrefação neste momento, o Colômbia El Diviso Typica Mejorado. Eis o que diz o seu rótulo:

Colômbia El Diviso Typica Mejorado, café de especialidade Tomassi Coffee

  • País e região: Colômbia, Huila, Pitalito
  • Altitude: 1 750 m
  • Variedade: Typica Mejorado
  • Processo: Advanced Natural
  • Produtor: El Diviso, Néstor Lasso
  • Notas: melão, mel, pêssego, cereja, melancia, morango

Lendo linha a linha: uma boa altitude faz pensar numa chávena viva e definida; "Natural" diz-nos para esperar fruta madura e doçura; "Advanced" avisa-nos de que a fermentação foi conduzida com precisão. De facto, como conta a ficha, as cerejas repousam cerca de 24 horas, depois passam por duas fases anaeróbicas em tanques selados de cerca de 48 horas cada e secam 15–20 dias em camas africanas. Resultado: um natural moderno, intenso mas limpo, com o mel em primeiro plano, pêssego e cereja, e um lado fresco de melancia e melão. Brilha em filtro e porta-se lindamente também em espresso. Se te apetecer pôr à prova o que acabaste de aprender, prova-o e diz-nos se encontraste o morango.

E a data de torra?

Grãos de café acabados de torrar no tabuleiro de arrefecimento, torrefação Tomassi Coffee

Última linha, mas não menos importante. O café acabado de torrar precisa de repousar antes de dar o seu melhor: recomendamos pelo menos 5 dias para filtro e cafeteira italiana e pelo menos 15 para espresso. Por isso, se a embalagem chegar fresquíssima, nada de pressas: espera, compensa. E quando chegar a hora, aqui está a nossa receita para filtro para começares.

Em resumo

  1. País e região dizem-te de onde vem, não se vais gostar.
  2. A altitude é uma pista de densidade e vivacidade, não uma nota.
  3. A variedade é a "raça" da planta: aponta as que adoras.
  4. O processo é a linha que mais muda o sabor.
  5. As notas são um mapa, não um exame.

Da próxima vez que virares uma embalagem, tira trinta segundos para a ler. Vais ver que a chávena te vai parecer logo menos misteriosa (e muito mais saborosa).

Kiss my beans!
Um enorme obrigado, a Tomassi Family

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Da teoria à chávena

Agora prova-o na chávena.

Escolhe um café e põe à prova o que acabaste de ler.